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19/03/2017

Jorge Okada, o menino da sopa

Ele guarda como relíquia a revista do O Imparcial do 135º aniversário de Araraquara. Em uma das páginas, o destaque é ele, ainda menino

 


Célia Pires

Na segunda-feira, um senhor oriental muito simpático veio até a redação d’O Imparcial. Ele que é professor de origami e matemático. Trazia consigo um tímido sorriso, uma expansiva simpatia e uma revista antiga que carregava com todo cuidado.Convidado a se sentar, contou que se chamava Jorge Okada, nome que, segundo ele, tinha vários homônimos, inclusive em Araraquara.

Já a revista, um exemplar do O Imparcial de aniversário dos 135 anos de Araraquara, de 1952, trazia uma reportagem sobre o Parque Infantil ‘Leonor Mendes de Barros’ com texto de João Ferraz e fotos de Lúcio Silva e Darc Gaudiosi. Uma das fotos trazia um menino oriental de uns três anos, comendo gulosamente um prato de sopa. O menino era ele, Jorge Okada, hoje com 71 anos.“Como eu era muito comilão me pegaram no flagra na hora da foto, eu era tão guloso que quando acabava de tomar a sopa pedia mais e falava, caso não me dessem: daqui não saio!”.

Como Araraquara fará 200 anos em agosto próximo, Okada ressalta que achou interessante contar o que foi feito daquele menino mais de meio século depois.A revista que era de seu pai foi transferida para Jorge quando ele já estava casado, com filhos. “Guardo como uma relíquia, principalmente por causa do parquinho. Tenho muitas histórias de lá. Para se ter uma ideia, no parquinho eu cantava para ganhar umas balas”.

Okada também se recorda que certa vez o Papai Noel do ‘Parquinho Noel’ era ninguém menos que o prefeito da cidade, Pereira Barreto.São tantas lembranças que Okada traz como a que na creche do Parque Infantil naquela época era atendido pelo médico Dr. Logatti.Questionado sobre onde mora, conta que atualmente reside em São Carlos, mas que já morou em São Pedro quando se aposentou, com o objetivo de proporcionar uma melhor qualidade de vida aos filhos.

Jorge Okada nasceu no dia 11 de junho de 1949, em Araraquara, no bairro de Santa Angelina. Filho de Issamu, natural de Osaka, Japão, e de Kiyo. “Meu pai veio com meus avós, minha mãe, Kiyo, natural de Ito, veio com um irmão dela, portanto não poderia vir, mas deram um jeitinho fazendo um casamento fictício para a imigração, Nem sei quem é, mas é uma pessoa que veio como marido dela.

Os pais de Okada se conheceram no Brasil, provavelmente em Olímpia. A vida destes imigrantes não foi fácil. Eles trabalhavam em um sistema que pode ser considerado de semiescravidão. Para se ter uma ideia tinham que comprar na venda da própria fazenda e era uma conta sem fim, pois sempre estavam devendo. “Meu pai era muito honesto e ficou, mas outros, que acabaram ficando bem financeiramente, fugiam sem pagar a dívida. Só que ele era uma pessoa honesta e de muita confiança e como tinha facilidade para fazer contas era quem controlava o peso das colheitas, como a de algodão e café, por exemplo.

Jorge se lembra que passaram pela fazenda Martinho Prado. Depois a família foi para Pradópolis. Como os irmãos de Jorge viviam doentes, o padrinho de uma das irmãs dele sugeriu que fossem para Araraquara, pois a cidade era boa, um local onde as pessoas tinham saúde. Assim vieram para cá. Foram morar próximo ao IEBA onde vendiam doce e posteriormente somente pipoca.


Quando tinha uns dois anos, a mãe o colocou no parquinho. Minha irmã mais velha me levava nos ombros dela, diz acrescentando que no parquinho tinha um médico que se chamava Dr. Francisco Logatti que ao longo dos anos se tornou um amigo até o fim de sua vida. “Ele me tratava com um carinho muito especial. Quando fui estudar agrimensura, ele era o diretor da Escola Técnica de Agrimensura”.

Okada conheceu o filho de Dr.Logatti, Chiquinho, que também estava se preparando para prestar vestibular, pois iria ter o primeiro ano da Civil. Só que para Okada não deu certo, mas Dr. Francisco Logatti arrumou para que ele fosse trabalhar na Camargo Correa, em Ilha Solteira, cidade que ajudaria a construir. “Quase todas as ruas fui eu quem loquei”, diz o matemático.

Orgulho


Okada sente um imenso orgulho de ter a sua vida misturada a de Francisco Logatti. Toda vez que vinha para Araraquara ia visitar o propulsor dos seus sonhos. Depois foi trabalhar em Planura, na barragem e construção da cidade. Nesse lugar conheceu Mauricio, a pessoa que o levaria para São Paulo, onde poderia realizar seu sonho de fazer faculdade.

Em Araraquara chegou a trabalhar na Talavasso. Em São Paulo, onde se aposentou em 99, trabalhou no Metro da cidade. “Comecei na Hidroservice, trabalhou em Belém, Brasília, Mogi das Cruzes, entre ouros lugares como Engevix com os franceses na parte de ferrovia.

Essa questão de fazer faculdade foi muito penoso para Okada, pois na época, a família seguia uma tradição de respeito à hierarquia de que se o filho mais velho não fez faculdade nem seria o caçula que iria fazer. E esse era um dos motivos que Okada queria sair de casa, pois queria estudar, e quando Logatti veio com uma nova possiblidade, agarrou a mesma com unhas e dentes.

Para ele, fazer faculdade foi um desafio vencido. Ele que fez Mackenzie em São Paulo, a despeito da tradição oriental que poderia frustrar seus sonhos, carrega dos pais lições que considera valiosas: a mãe ensinou a não excluir ninguém, a não discriminar. Já o pai, a ser honesto e dizia: os outros podem ser desonestos com você, mas você não. “É essa honestidade que também deixo como legado para meus filhos”.

Nobolu

O saudoso Nobolu foi presidente da Nipo, do Clube dos 50 e candidato a vereador. Recebeu várias homenagens de clubes como 22 de Agosto e até virou nome de rua, através de um projeto de lei de Mário Okama que estudou no IEBA(Instituto de Educação Bento de Abreu) com Jorge; o saudoso Teru, Tieko e a saudosa Ury.

“Eu devo tudo a Araraquara. Começando pela minha família que só melhorou de vida depois que se mudou para Araraquara, Eu me formei aqui no ensino técnico no Logatti. Depois fui para São Paulo fazer faculdade e lá me aposentei”.

Autor de vários projetos, fez matemática por causa de Okada. Ele conta que a fabriqueta de pipoca japonesa da família era feita artesanalmente. O negócio durou até o final da década de 60.

Família

Jorge Okada é casado com Maria Tamaki Okada, desde 1979. O casal que hoje ensina a fazer origamis teve três filhos: Dagoberto Yukio, Guilherme Takayoshi e Theofilo Satoshi. “Eu coloquei esses nomes para que não ocorrem homônimos como o meu, pois tive muita dor de cabeça, pois um homônimo devia em todos os cartórios”.

Lembranças

“Uma vez uma professora deixou minha irmã de castigo. Quando eu vi peguei uma varinha e comecei a correr atrás da professora. Eu tinha uns três anos”. Eu me lembro de que estudava na escola João Manoel do Amaral que trouxe os alunos para conhecer no jornal O Imparcial o primeiro linotipo. Eu tinha sete anos. A criançada veio toda num caminhão FNM ver a novidade. Fui fazer matemática por causa de Oswaldo São Jorge que escrevia livros sobre a matéria”.

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