O advogado Luiz Carlos Bedran um pescador filosófico

“Sou um cara filósofo, vamos assim dizer. A vida é curta e temos que vivê-la de acordo com a filosofia da gente e em paz com todo mundo, sem pretensão”

TEXTO: CÉLIA PIRES
DESENHO EM BICO DE PENA- KIKO LOPES

Não podemos falar de Luiz Carlos Bedran sem deixar de falar em seu pai, o saudoso Jorge Bedran, e de sua mãe, Splende Guerzoni Bedran, cujo nome foi tirado de um hino anarquista. Seu pai, era de família de origem libanesa, nasceu na cidade de Bragança Paulista, mas foi criado na cidade de Santa Adélia, onde os seus pais eram comerciantes. Posteriormente, prestou o serviço militar em Campo Grande, Mato Grosso.

Formou-se jornalista e passou a escrever no jornal “A União”, de Santa Adélia. Ali conheceu a também jornalista Splende Guerzoni, que era filha de Oliviero Guerzoni, um anarquista italiano que veio para o Brasil no início do século passado. Foram 10 anos de romance até se casarem. Dessa união nasceram Jorge Bedran Filho e Luiz Carlos (nosso personagem) e Alder Olivier, este último nascido em Araraquara. O advogado Luiz Carlos que é nascido em Santa Adélia no dia 3 de março de 1945, conta que a vinda de seu pai para Araraquara foi por conta de um grupo de ladrões. Ele era escrivão de polícia em Santa Adélia e havia ido atrás de ladrões de cavalo de Fernando Prestes. Foi quando descobriu que um dos bandidos que havia processado era um açougueiro e chefe político do PSP.

Se sentindo ameaçado, ligou para Ademar de Barros que deu a ele duas opções para transferência: Santos ou Araraquara. Acabou ficando com a segunda opção e assim começou uma nova etapa da família. Já em Araraquara, Luiz Carlos conta que estudou no Grupo Escolar “Antonio Lourenço Correa”, na Vila Xavier, depois o ginásio no EEBA, que ficava na Rua 3, e posteriormente o colegial na Rua 4, próximo ao Parque Infantil. Ele se lembra que a Vila Xavier, pois morava nas proximidades da igreja Santo Antônio, era um bairro de terra batida. “Depois da igreja São Benedito não existia mais nada”, diz Bedran que acompanhou todo o crescimento da cidade.

Filho dessa mistura de libanês com italiano, Luiz Carlos diz que o que pesou mesmo foi a influência libanesa, pois ficava muito impressionado com seu pai que escrevia para jornal e tinha uma grande biblioteca em casa. “ Ele tinha lido todos aqueles livros e eu pensava: já que ele leu vou ler também”,conta Bedran que o pai que era escrivão de policia lia o Estadão para o pai quando este veio do Libando, pois não conhecia bem a língua. “ Já estamos na quarta geração de assinantes do jornal”. Luiz Carlos conta que a mãe queria que conciliasse o trabalho com o estudo, pois tinha a garra e o espírito de descendente de imigrantes. Já o pai queria que somente estudassem. Venceu o pai. ‘Rato de biblioteca’, Bedran sempre foi muito influenciado pela literatura, gostava muito de política, história, religião, romance e mesmo muito jovem era um ávido leitor de Sartre. A escolha natural foi Direito, que cursou em Bauru. Também prestou Ciências Sociais, na Unesp, pois gostava muito de filosofia que fazia parte da grade curricular. “Nesse meio tempo prestei concurso em Araraquara para o Banco do Brasil e foi nomeado para São Paulo, mas com isso tive que trancar matricula do curso de Ciências Sociais.

Já em São Paulo prestei vestibular na Usp e comecei a cursar na ‘ Maria Antônia’, mas depois da morte de um estudante, o curso de Ciências Sociais em 66, mudou para a Cidade Universitária, para ir de ônibus até lá eu não tinha condições, assim tranquei matrícula”. Depois de certo tempo, Bedran resolveu prestar concurso para magistratura, mas passou para delegado de policia. “Fiquei quase 10 anos como delegado de polícia. Trabalhei em São Paulo por uns dois anos e depois vim para Araraquara onde terminei o curso de Ciências Sociais em 74. Sou advogado, sociólogo e jornalista sem diploma”. O procurador Bedran também foi procurador. “Em 1978 prestei concurso para procurador do Estado. Passei e me aposentei como procurador chefe da regional de São Carlos. Trabalhei em Jaú, enfim em toda a região abrangendo também Araraquara”. Casar, Bedran, casou em 6 de janeiro de 1973 com a araraquarense Sônia Maria Biondi, cujo pai tinha uma fábrica de móveis.

Dessa união nasceram três filhos: o advogado e vice-presidente da OAB, Jorge Luiz; Geovana casada com o Maurilio que lhe de um neto que e o ex-tenente da Aeronáutica, José Carlos, médico que faz residência em Santos. Na OAB, Bedran chegou a ser secretário e seis anos vice presidente. “A OAB foi um pedido dos colegas no sentido de colaboração, pois eu nunca tive pretensão nenhuma, pois não tinha nem escritório de advocacia”. Política Bedran confessa que quase se candidatou à vereança pelo PSDB, onde chegou a fazer parte do diretório da executiva e que também quase foi convidado a ser vice-prefeito. “Achei uma coisa interessante, mas foi quase”. O advogado diz que é possível caminha na política sem sujar as ‘patas’ e que ainda bem que existe a política. Para ele quem diz que não faz política já está fazendo. “Ainda bem que tem política, pois a mesma é fundamental e que tem muita gente boa e idealista. Acredito muito na política que é fundamental, embora tenhamos maus políticos. Ainda tenho muito fé na política, embora tenha visto muita coisa já, seria um pouco cético, mas ainda tenho um idealismo num futuro melhor”. Aposentado, Bedran se dedica a fazer coisas que gosta como escrever e pescar, além de participar da Maçonaria já tendo a honra de alguns anos ter sido presidente da loja (Venerável) Caridade Universal III que em 2015 completa cem anos. “Meu avô e meu eram.É uma tradição de família .É bom que se saiba que a Maçonaria não é religião e nem coisa do demônio.É uma sociedade discreta, cujo estatuto é registrado em cartório.

Na época da ditadura foi perseguida e a loja aqui foi fechada, pois seu princípio é a democracia. Depois voltou à normalidade”, diz acrescentando que existem palavras e sinais que identificam os maçons no mundo inteiro, tradição que remonta à idade média. Bedran traz com orgulho grandes homenagens como os títulos de cidadão araraquarense e de Taquaritinga, onde foi delegado. Escreve para o jornal de Santa Adélia e é colaborador d’O Imparcial há vários anos.

Revolução de 64

Bedran explica que tem a sua consciência tranquila e conta que era delegado de policia, mas não do Dops, e sim da ordem política e social, de distrito policial, que não tinha nada. Eu ficava longe disso, por uma questão ideológica. Não podia me manifestar. Com tendências socialista, de esquerda, eu ficava longe e não me envolvia.

Cheguei até a ser fichado naquela ocasião, pois fazia filosofia que era um ‘antro’ de esquerda. Mas o ideal nosso de um mundo mais bacana, igualitário, sem tantas divergências entre ricos e pobres. Acredito na política de gente idealista que preza pelo futuro não só país, mas do mundo.

Aquela época foi difícil para mim que tinha minha convicção ideológica. Não torturei ninguém, mas teve gente que abusou e muito. Eu era legalista e não era considerado um bom delegado, pois entendiam que o bom policial tinha que ter um monte de processos nas costas, que era aquele que ia atrás de criminosos para conseguir desvendar o crime acontecia um monte de coisa.

Fui sempre legalista e cheguei até a processar tenente até por que abusava do poder. A minha teoria é a seguinte: para descobrir um crime você vai praticar outro crime. É uma coisa contraditória e esse foi um dos motivos que eu quis sair da policia. Prestei concurso para procuradoria.

Sobre a maior lição que seu pai Jorge Bedran passou, o advogado que sempre diz aos filhos para que honrem o sobrenome que carregam. “Meu pai foi um lutador. Um cara pobre que veio com uma mão na frente e outra atrás para Araraquara e conseguiu formar os três filhos em doutores, abriu caminho pra gente, mas não digo só meu pai, mas minha mãe Splende, pois essa é a verdadeira heroína que no mês passado completou 98 anos, criou e estudou os filhos, nunca teve uma empregada doméstica ganhando uma mixaria do meu pai que era escrivão de polícia. E tem um detalhe: escrivão de polícia honesto, e não sou eu que falo isso. Basta perguntar para qualquer um que o conheceu, pois na polícia sempre teve corrupção, inclusive no interior. “Por isso a família é muito importante, pois carregamos o nome Bedran que aqui em Araraquara foi conquistado, honrado com muito sacrifício”.



1 Comentário

  1. LUIZ ATILIO disse:

    Bedran.
    Foi com muita satisfação que li seu artigo, provavelmente voce não se lembre de mim pois sou contemporeo e colega de infancia de seu irmão Alder, sou primo da Rosa Godoy filha do Roberto que tambem moravam na Dr.Leite de Moraes. Me lembro bem de seu pai e descrever o Grupo Escolar Antonio Lourenço Correa e a Vila Xavier passa um filme na cabeça da gente.Bons tempos …..

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